sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Rasante



Finjo o olhar. Não há uma sombra. Há um resto de papel 
para os inúmeros caminhos que voam contra o peito cheio 
de pássaros. É preciso limpá-lo, o peito, antes do vento. 
A hora é líquida e a tarde: indisciplinada e sem matrícula. 
Apesar de tudo, há uma réstia de esperança e de felicidade. 
Já me sinto a entranhar no corpo de palavras da noite. Não, 
não é uma réstia, é como que um manancial de possibilidades: 
um livro de contos e dois livros de poesia. A evasão perfeita, 
de momento, ou a ilusão de uma cura vertiginosa e indubitável. 


 [sobrevoo]



2 comentários:

  1. Fingir um furtivo olhar
    É como o olhar de esguelha
    Que sai mais deixa a centelha
    De luz no vácuo do ar.

    Em teu rasante voar
    Sobrevoas sobre a telha
    Que acoberta e espelha
    A luz do terno luar.

    A hora líquida arde
    Sob o sol claro da tarde
    Como um cavaco de lenha

    Feito em pintura por arte
    E reflete em toda parte,
    Antes que a noite, pois, venha.

    Grande abraço. Laerte.

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  2. Talvez o teu poema mais melancólico dos últimos tempos, é assim que o sinto. Entendo o fingir do olhar como um estado "induzido" de alheamento. A falta de sombra como um sentimento de exposição, de se estar exposto... Os pássaros como uma associação a penas, punição, lamento, sofrimento, que levam à hora líquida, como lágrimas... Mas, há uma saída à vista, que pode ser um paliativo: A leitura, a companhia dos livros e dos seus personagens e histórias. Isto sou eu a interpretar. :) Mas não é desagradável, encontro-lhe beleza e harmonia. Gosto, sim!
    Bjks

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