quarta-feira, 11 de outubro de 2017

[Interregno]




Mergulhada para dentro, bem fundo, em pé, 
atrás do balcão, como se não existisse, bate, 
ligeiramente, as asas; compõe a auréola, 
languida, teatral e delicadamente, como se ela, 
a auréola, se pudesse partir num gesto mais 
impensado ou brusco. E eu, que entro invisível 
e fora de tempo, sento-me e mergulho os papeis 
nas palavras onde me amalgamo sem acordos 
ou regulamentos. Ninguém saberá onde começam, 
ou terminam, os papeis, as palavras, eu, a mesa, 
a cadeira e o próprio espaço que ocupamos. 
Entre paredes: um universo. A felicidade procria, 
a um canto. Nas paredes umas grandes nódoas 
da humanidade. E, num dia calmo como o de hoje, 
tudo permanece assim, num tempo desmedido. 
Até que ela, vinda de muito, muito, fundo, 
prepara um café, que eu nem pedi, nem consigo 
recusar, e, em voo, o deixa no espaço que será 
o da mesa, que não é minha. Sem perder tempo, 
antes que me esqueça ou o café arrefeça, paro, 
separo-me das coisas, organizo-me e bebo-o, 
sem açúcar, sem mexer, em contramão. 


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terça-feira, 10 de outubro de 2017

[Asas]




A infusão a fazer as contas a vida, com o seu vapor 
a subir pelo frio do ar, como se quisesse alcançar a lua. 
A lua a brincar com as aflorações da neblina nocturna 
que vem da respiração de um capricho meteorológico. 
Neblina que também brinca com a ria. A ria que exala 
um hálito conciso a mar e a saudade, em partes iguais. 
… 
Nos dedos restam umas cicatrizes em rosado saliente 
e permanecem suspensos na necessária imobilidade, 
a suficiente para mapear o corpo do ar, calmamente. 
Os rebentos de afectos espreitam a sua oportunidade. 
O corpo assimila o visível e o invisível do espaço cénico, 
pelos vários sentidos, e cria imagens de intemporalidade;  
emite um calor envolvente, uma aura imperturbável, 
que limpa todo o volúvel do futuro e salda o negativo 
de todos os anos de existência matemática e métrica. 
... 
A infusão acomodou-se na chávena e arrefeceu; a lua 
existe, mas já não está visível; a neblina transmutou 
e é, agora, nevoeiro; a ria continua a ser ria e discreta; 
e o corpo, absoluta e totalmente, sorri, fora e dentro. 


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segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Descompressão




A sombra descansa nos ternos braços da noite impávida 
de olhos fechados, cerrando, também, os seus, a sombra. 
Há um indício de cansaço, na luz de todos os olhos da casa. 
O gato espalha-se, cuidadosamente, em cima dos papeis, 
cheios de gatafunhos; patas dianteiras e cabeça sobre o teclado, 
que vigia com zelo. Reestabelece, assim, a ordem, uma certa 
ordem, que chama, a si, a atenção e a delicadeza. Afago-o 
e enrosco-me em pensamentos. Ele sabe o que há-de escrever. 


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domingo, 8 de outubro de 2017

Solução




Não sei se faz algum sentido: a cidade adquire a imagem 
misteriosa dos outonos. Os canais da ria e as ruas, são, 
neste momento hesitante, canais de neblina vestida 
de conteúdo, que aponta ao instante; que é o alicerce 
da noite e um dos seus fios de vida; que conta histórias 
líquidas de infinitos que brotam do invisível e que despertam 
de sonos profundos, com a delicadeza dos assombros 
de natureza triunfante; que é forma verossímil e absoluta 
da representação do sentimento entregue à substância. 
E eu procuro, em toda esta fragilidade estética, a tempestade 
métrica do afecto, enquanto zelo monstros que fremem, 
convicto de que tudo, tudo, tem uma solução sofrível. 


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sábado, 7 de outubro de 2017

Reflexo




Eu sei que o sol não cai, são as horas da tarde que, a brincar, 
inventam a inclinação do céu, que cria as instâncias da fé. 
A pele acredita, sente e nutre a inclinação do azul e concebe 
a sensação que escorrega para a profunda dimensão da ideia 
de noite. Noite que aparenta cair depois do sol, no mesmo fio 
condutor, com a mesma melodia, com a mesma difusa certeza. 
É nesse preciso instante que, por vezes, a partir dos telhados 
das construções ou da natureza, procuro o derradeiro brilho 
do horizonte, que imortalize o dia e alimente a capacidade 
de me reinventar, de sorrir, de acreditar. De nos encontrar. 


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sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Imagens de voo




O voo necessita de ilusão, de pelo menos um quê de ilusão. 
Nos telhados, os pássaros de terracota, dizem tudo num gesto 
suspenso, que descansam quando julgam estar sós no tempo 
e inacessíveis à vista. Esses pássaros de terracota, voam quase 
só para dentro, até ao dia em que um vento certo e incontestável 
os demove, com um encontrão certeiro, e lhes dá uns instantes 
de ilusão. A ilusão suficiente e pertinaz para contrariar a atracção 
gravitacional da terra e proporcionar-lhes a derradeira alegria, 
que outras aves, como, por exemplo, as galinhas, se coíbem 
de conjecturar. Coisas tão banais para todos os restantes voadores, 
para quem, por vezes, durante um segundo ou durante vários dias, 
voar não é tão fácil porque a realidade e o sonho não cabem nas asas 
e / ou o céu ameaça ruir. Não há uma exacta medida de capacidade, 
um tempo certo ou previsível: acontece. É a vida. 


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quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Voo limpo




Lembro-me de ter visto nuvens assim, 
como este caminho de quinta-feira, 
onde me disperso, meio dentro, 
meio fora, da vida que vai chovendo. 
Trago, por baixo da pele, polissílabos tradicionais; 
a margem do esforço; monstros que tremem; 
a esperança das águas-furtadas que ficam 
no céu peito aberto; o frémito das folhas 
de almas outonais que procuram o vento; 
um tempo pouco, veloz, de janelas de luar… 
Voo, oitava a baixo, nas ondas gama, 
mãos a sair do papel algibeira de afectos, 
lábios expostos em lugar geométrico, 
onde sou o louco de sempre. Sempre.


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quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Depois do último apontamento de voo




Chegam a cidade mais gaivotas. Tantas que parecem ser todas 
as gaivotas, um único e gigantesco bando de gaivotas silenciosas. 
Tentam acomodar-se pelos canais, pelos terraços, varandas, passeios, 
ruas... disputam todos os espaços físicos numa grandiosa ordem, 
mas, estranhamente, em silêncio. Tudo isto gera uma diversidade 
de sentimentos, que geram palavras, não nas gaivotas. E as palavras 
repetem os sentimentos ou geram novos sentimentos, que produzem 
mais palavras que ganham sons. São agora as palavras que criaram 
estes sentimentos e toda esta confusão, onde: o dia não se importa; 
o ulmeiro ri, perdidamente; a higiene do amor fica esquecida,
como que numa loucura sumariamente albuminada; e o verso voador 
vai de encontro ao vaso de poesia, que esta à janela a sonhar, 
por ver os banais sábios de sempre a debater a luxuria das nuvens. 
Tudo fruto de mais palavras, já em itálico, já em carne viva e pasmos. 
Não se perde a poesia. Não chames o passado, que temos toda a vida. 


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terça-feira, 3 de outubro de 2017

Apontamento de voo




É provável que passem nuvens muito escuras nos teus olhos, 
que descubras monstruosidades desconhecidas no teu cérebro. 
Mas, talvez seja preferível assim, e não o fazer em pleno voo. 
As casas de banho do amor são como todas as outras: 
cheiram mal, se não as lavarmos, e é ali que nos aliviamos, 
até de algumas ilusões, necessária ou fatalmente, é relativo, 
ou fatal e necessariamente. Talvez, demorada e furtivamente. 
Tentamos dar-lhes um ar atractivo, um toque afável, sem assédio, 
ter um quê de aprazível e de dignidade colados ao próprio corpo, 
quase sem luz, porque, quase, quase só sombra, repleto de piedade 
da própria vida e a fervilhar de natureza. Um pouco de audácia, 
outro de cobardia, em partes a gosto ou em partes à sorte. 
Depois, o voo prossegue, a vida não teve, sequer, intervalo 
e, visto de cima, tudo tende a ser, concludentemente, mais belo. 

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segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Uma sugestão de apresentação




Olá, aqui estou, sou de barro e sinto no meu barro o prazer do voo. 
Encontrei a incompreensão, mas, pelo menos, aprendi a conjugar os sons; 
a aquecer-me no vacilo do sol de outono; a resguardar-me das almas 
de paixões sangrentas; e a confundir-me nas sobras da noite e sombras da lua. 

A sombra não morre, a luz confere-lhe um pouco mais de dimensão 
e clareza. As palavras aparecem gastas, cansadas, espalham-se pela ideia 
de existirem para além do criador e do leitor, trabalham essa possibilidade, 
mas não querem morrer. A poesia não quer morrer. O amor não quer morrer. 
Eu não quero morrer. E o céu hesita nos olhos de toda esta urgência narrativa, 
de toda esta urgência de movimento e vida, e nos olhos da multidão impaciente, 
no exacto instante em que retomo o voo. O céu não pode falhar. Eu não posso 
falhar e vivo e voo, mesmo quando o sonho falha, não voa ou morre. 


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domingo, 1 de outubro de 2017

Sobre a ria




Muitos decepcionam-se com a ria, com os seus canais urbanos, e eu não 
os censuro. A decepção é um substantivo esquisito, que existe para perdermos 
o movimento. Mas, talvez estejam a vê-la por fora, apenas, e é preciso esperar 
que se abra; é necessário que os olhos não fiquem suspensos, ou fixos, 
no seu espelho, que nos espelha, ou na sua aparente, mas nossa, imobilidade; 
é necessário investir uns sinceros instantes de atenção para sentir a retribuição 
amorosa da sua alma profunda, generosa, tolerante, compassiva e serena. 
Os encantos da ria têm os seus próprios tempos, as suas distintas dimensões 
e os seus símbolos peculiares, que nos visitam as profundezas do cérebro 
e do espírito, muito além da sua participação plástica, alegórica ou decorativa 
na cidade que se lhe entrega para complementar o real de felicidade. 


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quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Aterragem




Eu quero falar-te sobre as coisas mais simples que me aconteceram, 
entretanto: deixei cair o outono, um pedaço de outono, na primavera, 
no regaço da primavera, e não sei se é justo que, agora, venham separá-los, 
neste tempo em que se começam a entender, embora tudo tenha a simples 
e extravagante aparência de estar infinita e repetidamente baralhado. 

Uma senhora quer comer-me as flores e, por outro lado, estou dentro 
desta ideia do tempo dentro do tempo, onde sopra um vento dentro 
do vento, e que se move, agora, à mesma velocidade do tempo 
que ocupa. Por isso, com certeza, não será conveniente que eu apareça 
com um tempo, que, embora tendo-o criado, já não me pertence. 


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quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Identidade duvidosa




Que estranho mundo, de coisas indizíveis. 
Andei à procura da inteligência das estrelas, 
sem conseguir alcançar uma coisa ou outra, 
e agora encontro as andorinhas em alvoroço. 
Desenham, no ar, o prenúncio ruidoso e veloz 
da sua eminente longa viagem, com a imagem 
gasosa da leveza do cetim, negro e branco, 
e o espelho chama por mim, desequilibrando 
a surpresa, com os nervos à flor do vidro sensível. 
O dia interrompe-se e as promessas dos cartazes 
ficam, simples e irremediavelmente, suspensas, 
como os sorrisos atónitos dos rostos estampados: 
Não valem nada e não são por, ou de, ninguém.


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quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Ao balcão





Esta é a consciência de que todos somos personagens 
de uma vaga da história, em dias mais ou menos fáceis. 
Este é o lugar que mais os aproxima dos livros, de que 
não necessitam (os personagens que transmutam as suas 
fisionomias, numa luta ininterrupta pela sua sobrevivência 
ébria, e que, na realidade, contém todas as elementares 
instruções); que mais aproxima a nossa mútua e precária 
existência e é uma espécie de taberna. Do outro lado de uma 
rua muito estreita, ainda resiste uma casa onde residem livros 
resilientes e que não estão presos a ninguém (como eles), 
apenas a uma instabilidade (como a nossa, a de todos nós), 
como que uma biblioteca. Mas creio que, reflectidamente, 
a proximidade não se fica por aqui e é aqui que, por vezes, 
venho tomar um café expresso, incomparavelmente amargo. 
Como se, também eu, esperasse encontrar um fundo de razão 
num fundo de chávena com borras; onde sou eu o personagem 
estranho, miserável e cheio de resíduos, por quem os deuses penam 
às janelas, e que leva uma bofetada da vida, sem sequer a ver 
passar, vida que só aos personagens de outros fundos pertence. 
Aqui, ninguém quer ajuda e a ajuda fica, obedientemente, à porta. 
Este é o sorriso de quem sabe que é igual e que pode levar consigo 
muita da miséria, que é a nossa alegria de ter coisas que não deixam 
voar. E depois voo, tão rápido quanto a minha imaginação o permite. 


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 [04 de setembro de 2017]



quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Síncope




Fecho-me, com o dia. 
O tempo hesita num triângulo de luz. 
Não faltam os pássaros e uma aragem de ria 
na antiguidade da cidade 
(Alauario, hoje, com pouco sol), 
como orla do pensamento, que sobrevoa 
o final de um agosto frágil. 

Se, em Portalegre, a sombra cresce com a serra, 
numa evolução aérea, 
em Aveiro, a sombra cresce para o leito da ria, 
num desenvolvimento aquático, 
igualmente rústico. 
É assombrosa a velocidade da sombra, 
assim como a velocidade da ausência, 
ou como a velocidade da estupidez. 

Ao longe, 
talvez não demasiadamente longe, 
uns agitam bombas e ensinam a guerra 
a falar grosseiramente; 
outros leccionam o conflito às palavras que sacodem; 
outros, ainda e naturalmente, fazem tudo isto, 
de uma só vez. 

Eu, só quero estar só. 
Trago nos olhos as palavras que não digo, 
porque, por vezes, 
de certa ou alguma (boa) forma, 
o silêncio deixa quase tudo claro, 
e falar, ou escrever, gera um ruído excessivo. 
Mas nem sempre é assim. Eu sei, 
ou quase sempre vejo essa margem. 

Sabe-se que são coisas, 
só coisas, 
apenas coisas. 
Fecha os olhos e olha para um sítio diferente, 
bem dentro de ti. 


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quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Leveza




«Não tenham pena de um qualquer meu voo triste.
Temo que, para me protegerem, me sobrevoem,
enquanto, eu, também, voo, sobrevoo, ou, simplesmente,
ando. Há quem atire terra, pedras, coisas, balas, bombas,
palavras. Não forçosamente por esta ordem potencial
e crescente de grandeza, não necessariamente todos
os elementos desta lista e sem aparente, ou viável, motivo.

O verão, veraneia-se. É sempre um dia de um dia
qualquer. Vem as estradas a andar, a água a nadar
e o ar voa. Acende-se a luz da luz e a possibilidade
das árvores cresce na sua própria eventualidade,
como nas pessoas das pessoas.»
– Confidenciou-me o ulmeiro.


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quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Meia parte




Início de cor, na evidência da velocidade da sombra,
repleto de ciência, debruado na inércia da maré,
visto de cima, passado o sono: abre-se a imagem.

A um silêncio de um pão, para serenar a fome,
pousou a ria, com um não, num gesto singular,
fixando as águas positivas em toda a sua geografia.
Nas pupilas, guardou as objectivas e a gravidade
da câmara, com um cerimonial vaporoso, em flor,
minuciosa, sem dúvida e com sal, enquanto levedava
um voo de prosa e outro de poesia, no meu corpo
de pássaros rosa-simpatia do tempo das nuvens.


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terça-feira, 22 de agosto de 2017

Umas semanas depois




Por vezes, iludo-me. Penso que já não sou exactamente 
eu, precisamente o mesmo. Mas, o que mudou foi aquilo 
que ficou e o que partiu, ou a suas imagens, e os reflexos 
de estar sem ser e de ser sem estar. Compreendo o saldo 
do amor como um sorteio da poesia num instante preciso 
e, contudo, alegórico, de ventos mais ou menos pacientes. 

A janela abre-se por dentro, no cérebro, e o seu tempo 
não pára, como no caso do tempo das ruas, que quase 
ficaram na sua época e agarradas a um nome de acaso, 
por obra do mesmo, acaso, e que lhes guarda a sua 
ímpar distância, quando um homem não as emaranha 
numa nova vida, para castigar as memórias dos vivos. 

Sempre que olho para a ria, vejo que nunca daqui saí 
e reparo na minha mais natural sugestão de apresentação: 
um fogo, uma terra, um ar, uma água, um metal: líquidos 
e simples, que, podendo estar em qualquer local, são 
de um ponto único, de lugar nenhum e de toda a parte. 
É este o regresso à casa de partida e os dados são aéreos 
e estão, fantasticamente, viciados. 


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segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Mais um poema azul



Enquanto a sombra não cresce em direcção ao céu,  
reduzido [eu] à insignificância da minha espécie e embrenhado 
na anarquia de vida que aqui regurgita, apesar da seca, 
explode-me o olhar sobre a imagem trémula das planícies, 
de onde medra a luz e o próprio calor, que trava a respiração. 
Nasço, uma vez mais, em milhares de palavras de serra, 
da serra de São Mamede, como se aqui tivesse nascido e, 
também, aqui nascesse o mundo, ou a sua pele, durante 
todo o dia. E é a serra que (embora possas discordar ou 
desgostar) põe o sol em movimento sobre todas as coisas, 
como Portalegre, que se junta de mil pedaços, numa mesma 
imagem viva. A cidade une os gestos da paisagem cerebral, 
assim como os meneios e a oscilação da paisagem física, 
e compõem a imensidão de paz, que é a nossa alma comum. 


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quarta-feira, 9 de agosto de 2017

De novo



De novo, pelos versos da serra de São Mamede, 
onde a poesia está livre de perigo, e sentado nela, 
serra, como que numa grande varanda, diante 
das planícies, da alegre cidade e sob um magnífico 
céu azul, tudo aparenta pertencer aos primeiros 
tempos de almas mais simples. Pouco há a explicar: 
encontro nas palavras um confortável e natural silêncio 
e se me recordo da vida, não é para a amaldiçoar 
ou lastimar, sequer, porque, foi, e é, aquilo que poderia, 
e pode, ser: o turbilhão da cor que quiserem que seja. 


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terça-feira, 8 de agosto de 2017

Hiper



Visto daqui, e de agosto, maio aparenta ter parido maria, 
durante anos, e uma efemeridade de gemidos de flores 
e de velas, que se apoderam do ar, muito depois 
de tomarem a terra como sua, como frémito de amor 
materno de personagem principal: o ulmeiro, de outros 
poemas, adoeceu irremediavelmente e procura o conforto 
do refúgio absoluto, entre as personagens, e as paisagens, 
secundárias; o meu moliceiro tem a cor da ria e confunde-se 
com ela; sei que nunca irei transformar as madrugadas, 
que não tenho, em dias que ninguém pode ter. Talvez, em 
parte, por isto, o vento se apresse a esticar o acinte da linha 
do horizonte que cia o verde dos grandes acontecimentos. 


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sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Rasante



Finjo o olhar. Não há uma sombra. Há um resto de papel 
para os inúmeros caminhos que voam contra o peito cheio 
de pássaros. É preciso limpá-lo, o peito, antes do vento. 
A hora é líquida e a tarde: indisciplinada e sem matrícula. 
Apesar de tudo, há uma réstia de esperança e de felicidade. 
Já me sinto a entranhar no corpo de palavras da noite. Não, 
não é uma réstia, é como que um manancial de possibilidades: 
um livro de contos e dois livros de poesia. A evasão perfeita, 
de momento, ou a ilusão de uma cura vertiginosa e indubitável. 


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quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Acidental



Que mais poderia eu fazer? A bibliotecária castigou-me,
(e justamente) sem castigar, com o olhar, fatigado, já no próximo
ano, e com a culpa de todos os males a cair, pesada, no colo
do programa informático, pelo atraso, de um dia, na entrega dos livros.
Um dia de castigo. Já não podia regressar a casa, como pessoa,
e distinguir-me do eclipse que ganha a imprecisa dimensão da ausência.
Fiquei a ler, demoradamente, horizontes e as estradas
de embarcações que representam vidas e passados improváveis.
É a vista do fim de tarde: a ria urbana tão cheia de gente
eventual e os flamingos tomam plena posse da cidade selvagem.
Nenhum moliceiro, ou batel, me poderá levar tão longe
que me tire daqui, nem deste tempo emprestado.


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quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Como nas conversas



Na fronteira da área de uma meteorológica conversa,
poderia dizer-te: cá se vai andando, um poema de cada
vez. E esqueceríamos o júbilo das latitudes onde a poesia não
se diz, nem a depressão do seu mais pálido e estranho reflexo
se vê. Mas deixemos o enfadonho rumor e delírio dos pressupostos.

Vamos além das fotografias. Ou entremos nelas,
na imobilidade fulgurante das suas imagens,
sem, contudo, trazermos, ou perturbarmos, a sua
inércia esparsa, vestida de técnica estética.

O verão chegou ao canto das minhas costas
e, voluptuosamente lento, não encontrou saída;
circundou-me; encarou-me; fixou-se num punhado
de sentidos e desenhou formas de transfigurar
os sentimentos dos meus mais fundos nervos.

Acendo-te a minha luz, uma evidência, para que entres
por baixo da minha pele. É possível afugentar a morte.


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terça-feira, 1 de agosto de 2017

Sobrevoo



No que acreditas, e onde cabes perfeitamente, é o espaço
entre o teu subterrâneo e o teu extremo de universo.

A mim, doem-me os pés de tanto voar e as palavras sonham
o poema, longa e desnecessariamente. Desconhecem o ténue
fio do tempo; o seu ponto morto; a sua fugaz espectacularidade;
e a sua linha, frágil, de costura, que se purifica no azul do céu,
assim como no branco da noite que cai depressa demais.
Tudo isto se espessa na espuma de um café expresso, fonte
de resistência, onde, também, falta o tempo, numa miríade
de bolinhas de ar quente, aromatizado e apressado, à procura
de um sentido que ganhe a sua distância, ou que se aninhe
num peito receptivo, num instante certo
e de desnecessárias explicações.


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segunda-feira, 31 de julho de 2017

Numa porta aberta



Nos meus olhos, a concepção de dedos que conquistam 
o abstracto do espaço e que procuram as linhas 
que formam o corredor do corpo que permuta o desejo. 
Tomar um último copo de acaso, talvez espirituoso, sem toldar 
a luz que se acende apenas a esta hora, quase meia-noite, 
e deixar dormir o calcário, o granito… As pedras em geral, 
pois o acaso justifica o vago da ausência de palavras no frio 
da alma, em pleno verão e, em corpos mal estacionados 
sobre os afectos que procuram dar um sentido aos abraços 
ao vazio. Visto de fora, à luz do dia, são pequenas coisas. 
Mas, à noite, são a interrupção das imagens, ou a ressurreição 
das palavras esquecidas nos subterrâneos da frase, ou de um verso, 
e quando as nossas sombras se tocam, ainda que inadvertidamente. 


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segunda-feira, 26 de junho de 2017

Reminiscência



Não sei onde estás. 
Como que te senti de alguma forma, com qualquer coisa; 
com a clarividência de uma noite de insónia e a extravagância 
da aragem. Num gesto, num gosto, num cheiro, doces.
Chegas-me como um novo conceito de realidade, 
num reflexo conhecido, e tocas-me para reaparecer 
nas sombras da memória, que de mim se alimenta; 
que em mim se demora; que não consegue abrir os olhos 
à chegada da luz; que não quer reconstituir a história quando 
esta se torna inevitável, mais nítida: uma imagem recuperável. 

É sabido que, em certas horas, tudo se confunde e amalgama 
em coisas banais, como coisas banais, para preencher os espaços 
vazios entre as palavras, assim como entre as linhas, da vida 
que nos esqueceu e que quase só murmuramos para dentro, 
por dentro, no milímetro quadrado da precária intimidade. 


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sexta-feira, 23 de junho de 2017

Progressivamente denso



Agora, o mar passeia-se pela cidade: 
a minha cidade, um certo odor a mar. 
As palavras chegam cruas e entram-me 
pelos olhos fechados, numa tarde 
que também se vai fechando, 
com prenúncios irremediáveis 
de que virá ainda mais vento 
pelo meio do amor que tenho 
pelos gatos e pelos cães abandonados, 
para me açoitar o sono, 
como os fustiga, a eles, cães e gatos, 
e ao fio da sua paz. 


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sexta-feira, 2 de junho de 2017

Um outro poema sobre fantasmas



Quando os fantasmas não têm a certeza da nossa existência, 
ganhamos a transparência fundamental e a consistência da névoa 
a pairar num obscuro e impensável despropósito de vida. E, 
nesses instantes, podemos vê-los plasmados numa solidez de dúvida; 
eriçados, em torrente, até à mais profunda convicção de si próprios; 
imbuídos em suor e vóltios que gemem uma melodia acidental; 
mesmo à nossa frente e numa qualquer superfície que, mais ou menos, 
espelhe, para que, a nossa imagem, atravesse a nossa memória. 


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quinta-feira, 1 de junho de 2017

Intermináveis



Há poemas que não tem fim, que não se deixam concluir, 
e que partem, sem partir, ainda com as raízes dentro de nós;
que nos deixam a olhar para o horizonte, como quem procura 
o amor ausente, um qualquer horizonte, mesmo que um horizonte 
confinado ao tecto onde despontam os bolores da habitação; 
que nos tocam o transcendente do odor e dos sons das imagens 
que se debatem para adquirir os contornos que deixaram de ser 
concretos e que vivem no limiar da realidade e dos sentidos; 
que adquirem a forma de uma melodia familiar e antiga, difusa, 
mas como que intrínseca à exactidão e à certeza da existência. 
São, sobretudo, os mais ruidosos e reproduzem-se no nosso silêncio. 


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quarta-feira, 31 de maio de 2017

Parece claro



É mais fácil ser-se o voo dos pássaros nocturnos 
do que ser alguma pequena história sem fundamento, 
daquelas que, por vezes, cabem numa linha que se repete 
no caminho que se abre nos olhos da manhã, mas sem a nitidez 
desta (manhã), entregue a nós próprios, como uma memória, 
em direcção aos primeiros raios de sol, e que sobe, célere, 
pelas aflorações rochosas, como quem avança sobre as aflorações 
caprichosas da saudade, com o joelho a recordar, ao corpo 
de poema, que existe. Isto, voar, ou deixar que o vento nos empurre 
para longe da praia, com o seu hálito de mar e felicidade primaveril. 


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sábado, 22 de abril de 2017

Breve



Numa noite mais fácil, bebo a primavera da luz, 
as palavras dizem os contornos da água 
nas estrelas que cantam os rumores oceânicos 
e o efémero do corpo espelha uma qualquer alegria, 
ou seja, uma alegria sem motivo aparente, 
com uma agradável e nítida sensação de leveza. 


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sexta-feira, 21 de abril de 2017

Ocular



Terão nome, os meus olhos 
que entregam os sinais de primavera? 
Serão janelas 
por onde entram o declínio da luz, 
as imagens dos contornos, 
os medos dos pássaros, 
ou o furtivo dos gatos? 

Sou um pouco mais do que eles, 
os meus olhos, 
que são os de quem, por bem, os procuram, 
sílaba a sílaba, 
em espirais de palavras voadoras, 
os versos. 

Poderão ser espelhos que eu não vi, 
os olhos, os meus. 
Talvez neles consigam lavar as mãos 
ou deixar a dúvida que balbucia a chuva 
dos olhos, dos meus olhos, 
onde sonho os dedos, os meus; 
onde acendo o corpo, o teu.  


 [sobrevoo]



quarta-feira, 12 de abril de 2017

[Céu]


Em Portalegre há mais céu, 
para o qual não comprei bilhete nem fui convidado. 
Nada é definitivo, mas todo este azul é meu, 
assim como toda a sua ilusão 
e, sobre tudo, o seu silêncio. 
Neste céu escrevo um pouco de sombra 
bondosa e indelével, 
que se poderá abrigar na serra 
como um indício essencial de verde e de paz. 


 [sobrevoo]



terça-feira, 11 de abril de 2017

Trecho


Os versos do último poema acendem a manhã, 
sem ria. Encontra-me o assédio da primavera, 
no rebordo das miragens insólitas das planícies 
que compõem o horizonte geográfico da tua imagem. 
A tua imagem de futuro, um brilho obstinado de frases, 
a concha do desassossego num escaparate de poesia. 


 [massivo]



sexta-feira, 7 de abril de 2017

Vêm renascer à ria


A cidade enche-se de páscoa. A sua depressão 
de inverno: curada pela chegada da psicologia 
multilingue de olhares ávidos de salvação 
e deslumbre, que, num impulso brusco que pausa, 
seguem a tribo hasteada, com o olhar, para ver longe 
a polpa do seu longe; deambulam nas marés vivas 
de momentos irrepetíveis e na afabilidade do clima, 
onde se exceptua o sobressalto do seu rubor que é 
a demora do meu sol na sua pele, ou algo assim. 


 [massivo]


quinta-feira, 6 de abril de 2017

Isagoge


Encontro, no elevador, parte do perfume que se cruzou 
comigo no passeio. É um perfume sem rosto e, contudo, 
tão gentil, como se existisse para alimentar a minha luz 
interior e não fosse um rastilho de vóltios para um drama 
que a linearidade do outono não entenderia na primavera, 
nesta sinopse verosímil de primavera de possíveis ângulos 
de observação desdobrável. Porém, quando o elevador range 
a evocação de um deus devorador de perfumes que geram 
emoções sob fascínio do anonimato, o dia regressa à vaga 
do fado feito de múltiplos e pequenos pormenores imprevistos, 
os perfumes evaporam e o dia precipitar-se para o encontro 
inevitável e repentino com o escritório à beira da loucura. 


 [massivo]



terça-feira, 4 de abril de 2017

Pela pequena porta


Perco o coração na ria, repetidamente, habituado à rotina de se perder. 
Sei que a primavera é maior do que o pensamento e que não se deixa 
aprisionar em fotografias digitais ou analógicas, em espelhos, na retina, 
nas palavras, nas memórias e estou a tentar senti-la no caule do poema; 
a esquecer as perguntas em chamas, que não se conseguem ver sem piscar 
os olhos, várias vezes, e que aparentam incendiar as memórias à beira 
da reforma ou à beira de um novo rumo que entra nas pupilas cheias de céu. 


 [massivo]



quarta-feira, 29 de março de 2017

Gravação


O vento, quase imperceptível, afaga as minhas raízes aéreas. 
Descanso sobre a página, uma folha tenra da primavera. 
Uma folha como qualquer outra, entre muitas outras, 
com pouco e tanto para contar, que segue facilmente 
o andamento lento da luz ávida, contudo, perfeitamente 
incapaz de inundar a cidade mergulhada na aridez de noite. 
Entretanto, a ria, polvilhada de pólen, leva-me para longe, 
com a vontade que eu trazia de me perder nesta neblina 
autêntica, onde deixo as pegadas de um gesto reflexo; 
onde os sentimentos transmutaram a paisagem e o nome 
que te anuncia não te diz e te dá a forma de um mistério. 
Onde está a chave, o destino de ir para onde já me encontro? 


 [massivo]



quinta-feira, 23 de março de 2017

{quando o poema é uma árvore}


Um poema é, por vezes, isto: uma árvore. 
Rebelde, em bruto, que não se deixa, ou não 
se deve, podar; de quem não vemos todas 
as raízes: a origem; com um tronco onde, 
por sensatez e estima, não rabiscamos as 
nossas alegrias, o amor. 


 [massivo]



quarta-feira, 22 de março de 2017

Forma elementar


O meu amor analógico na parte biológica do poema. Sinto frio, 
uma gripe de palavras improváveis que desenterram o que eu 
quero esquecer. Agarro-me, com firmeza, à frieza retórica 
dos números à procura de um pouco de calor. E conto baixinho, 
conto para mim, conto para não pensar em mais nada, 
para permanecer na parte de fora de um qualquer sentido 
que me possa colher da ausência que é esta paz de abstrair 
a mente da impaciência dos números, das palavras, das imagens, 
até adquirir a forma elementar e transparente da brisa que te abraça. 


 [massivo]



segunda-feira, 20 de março de 2017

Pelo prazer ou pelo capricho


É uma margem mais coerente, um lugar mais provável. 
Tudo aqui é mais caro, mas nem por isso mais simpático. 
Ou talvez o brilho monetário do meu olhar seja insuficiente, 
ou é um intervalo vago nesta geografia de conhecidos. 

Vi o que tinha, e o que não tinha, a ver: as grandes bifurcações 
da verdade em lotes normalizados; a beleza artificial entroncada 
na beleza natural com a mesma falta de garantias; a real incerteza 
que não oferece consolo; o brilho sofisticado e apelativo, até a linha 
do horizonte omisso; a sensação ou o traço seguro da presumível 
alegria; a ingenuidade da cidade à procura de espaço e ordem; 
que, afinal, eu sou muito mais livre e feliz do que imaginava. 

Não há pombos. Mas há gaivotas, que procuram a tempestade 
consumista, como uma oportunidade de festim aprimorado. 
Afinal, há excedentes, pelo menos, visivelmente mais apetecíveis, 
ou a imagem táctica da ilusão estatística de poderem existir. 
Por outro lado, também, tudo aqui é mais conciso, mais breve, 
mais curto e depressa se chega ao fim, um qualquer fim. Fim. 


 [massivo]



sexta-feira, 17 de março de 2017

Este silêncio


Este silêncio, que responde à tarde sem nada e ao céu curvo 
de cor-de-laranja de admiração, está cheio de gente. Espantosas 
pessoas que se alimentam de recordações doces do toque calmo 
da mão do sol-poente, ou se esquecem de partilhar o deslumbramento 
e o êxtase irresistível. Como se tudo se passasse com outros ou no sítio 
onde admiravelmente não estão e o instante não ficasse cada vez mais 
longe de qualquer um. Por dentro choram, como se perdessem alguma 
pessoa de família, e por fora sorriem, como se encontrassem a melodia 
oficial de uma qualquer intima, minuciosa e indizível glória amorosa. 
Ou sou eu, carregado de ramos invisíveis de árvores imaginarias e à janela, 
que, sem expressão, não vejo a assinatura do alvoroço de intenções amáveis. 


 [massivo]

quarta-feira, 15 de março de 2017

Não saias pela margem


O ulmeiro abrolha com urgência. 
Sente-se-lhe a ressurreição e a impaciência; 
as emanações das intenções materiais de uma antecipação 
de primavera numa primeira imagem imaterializada, 
contudo, sem o tom profético, mas com o tom de uma absoluta certeza 
que quase fere de morte qualquer ensejo de guerra. 
Não encontro o fio condutor que me conduziu à parte mais nobre do ulmeiro, 
onde eu confiro essa revolução de paz, da qual provo a sua surpresa límpida 
que liberta as palavras das ameaças e as isenta dos delírios dos aracnídeos 
que tentam prender-nos os braços de ar. 


 [massivo]



terça-feira, 14 de março de 2017

Almofada


Recordo-me do arrepio inicial, do coração da história 
que povoa a memória sobre a determinação do silêncio, 
aquele formigueiro de imagens que levam a ria a soltar-se 
do cais e a lamuriar-se pela praça, onde a minha voz sem dor 
me chamava e chama e o amor era um raio de sol no tecto 
do quarto, o palco de um teatro privado de sonhos de encontros 
por realizar. Um mundo invertido que encontrava o seu sentido 
nos dialectos das plantas sem promessas, o refúgio das assimetrias 
das circunstâncias e das razões misteriosas, que é, também, uma 
das origens dos sorrisos estúpidos da invenção do amor analgésico 
e que povoam o esqueleto dos poemas: a sua fonte e base de conforto. 


 [massivo]



segunda-feira, 13 de março de 2017

Imaterial do amor


O mar, arrepiado, que já viu tantas histórias 
e que se move por necessidade, vai encurtando 
a solidão da praia num abraço que a diminui. 
Ou melhor, que a inclui perfeitamente em si, 
como se a reclamasse como coisa sua, apenas 
sua, na decisão de amar a laguna, que já teria 
tomado, já lhe teria dado o acto misericordioso 
de ria absoluta e definitiva, não fosse o pavor 
da memória humana ter depositado várias 
toneladas de álibis na duna que se extinguia, 
que perdia a memória em rudes prestações, 
na imensidão decisiva de areia de inconsciências 
obsoletas e irremediáveis, que durarão mais 
do que as fotografias digitais de uma indiscrição. 
Junto, saberá a mortalidade por quê, tudo isto, 
na mesma pasta imaterial do amor, em memória. 


 [massivo]



quinta-feira, 9 de março de 2017

Algumas coisas em pequenas partes, sem paisagem


Esta coisa de rebobinar, de iniciar como quem volta a trás, 
pode gastar-se ou partir, tudo coisas de acabar ou a termo; 
coisas que, em verdade, não existem, ou são só coisas. 

Hoje, quando me vi ao espelho para decidir se aparava esta 
coisa que é a barba, encontrei uma coisa assim como um traço 
contínuo, no lugar dos lábios, e disse-me: sorri, coisinha! 
E a coisa compôs-se, mas a barba lá continuou, coisa e tal. 

Há quem procure coisas em mim, uma qualquer coisa 
para desperdiçar, uma qualquer coisa que não tenho. 
Eu não tenho coisas, as coisas não são minhas, embora 
estejam por aqui, em mim, e eu próprio seja uma coisa. 

Entre coisa e coisa, as coisas também nos dão alegria, 
ou a ilusão de o ser ou de a ter, quando não nos coisam. 

Aquela mulher não é louca. E aquele homem, também 
não! Continuam a sonhar, como eu. Somos sempre os 
mesmos a sonhar. Eu procuro coisas nas palavras, ela 
procura coisas pelo chão e ele procura coisas no ar. 
Acredita, eu, em alguns dias, muitos dias, para além 
de procurar coisas nas palavras, procuro coisas no chão, 
no ar e em todos estes loucos que não o são. 


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quarta-feira, 8 de março de 2017

Do dia


Não são falinhas tortas, palavras tatuadas ao acaso 
num papel casual, com uma tinta escura e paternal. 
Gostaria que não necessitasses de uma lei, ainda 
assim cega, para que te reconheçam como minha 
igual, para que te imponham em número, como se 
fosses apenas isso: um número, uma proporção, 
uma simetria, um gráfico… estatísticas de ocasião. 
Mas, num certo sentido de similaridade, deseja-se, 
mas não se espera, que deixem de existir homicidas, 
violadores, corruptos e corruptores… agressores, 
ou a intolerância, o sectarismo, a discriminação... 
Deverias poder estender-te pela ria, sem medo, 
a bradar felicidades em demoradas viagens salinas 
com o tempo das ruas e das marés, que não fecham 
aos domingos. Mas os senhores não mudam, não 
vacilam. Têm a urgência num repasto elaborado 
e fácil, o entendimento de uma hipocrisia milenar. 


 [massivo]



terça-feira, 7 de março de 2017

Dentro


Em alternativa, o dia acerta-se por uma razoável curva estatística 
mecânica, que continua a sonhar, numa intrincada rede de fé 
automática, que se precipita para o persistente sorriso sonâmbulo. 
Digo eu, com a galhardia de um poema a uivar-me na palma da mão 
quente, com estrelas a brilhar sem bússola. As estrelas de sempre, 
que continuam a beber a sede da lua, num tédio de pé, ao balcão. 
Talvez tudo se explique nesta espuma de café, colada à chávena, 
onde deixo as pegadas de uma vida, enquanto a melodia se perde 
nos olhos coalhados e a tua imagem frontal emudece gradualmente. 
Mas, se de facto assim for, é tarde; já não vou a tempo de entender. 
A funcionária já se precipitou, amável e sorridente, a levantar a mesa. 


 [massivo]



domingo, 5 de março de 2017

Possibilidades massivas



A chuva reimprime os pequenos espelhos onde se reflecte, 
nos intervalos, a afeição da lua, sem argumentos adicionais. 
Vê: os sentimentos, mais do que meras palavras, ostentam 
a singularidade e a pluralidade das mesmas letras obstinadas, 
mas abandonam os simulacros de sinais de um passado de 
ruídos, de tormentas de silêncio e de protestos de caminho. 

Não sei se perdi, algures, o caminho tomado no início, ou se 
esse caminho entroncou, naturalmente, neste, onde agora 
me encontro. Sei que o outono deu lugar ao inverno e que 
os seus dias já estendem os ramos azuis, numa determinada 
atitude revolucionária de luz e de conquista de espaço à noite, 
à sua parte visível, para cobrir a terra com o meu verde diurno. 

Conheço estes pássaros nocturnos que, felizes, abraçam os meus 
olhos. Mas deixemos o céu, trago na pele o mar que tirei da gaveta. 


 [massivo]



sábado, 25 de fevereiro de 2017

Duplo traço encarpado



Procuram-me os dedos e os medos das palavras relutantes, 
que se alinham no estertor da linha imaginária, ou lugar- 
-comum, do horizonte que a névoa ainda permite, antes 
do abraço, o seu humedecido abraço de fim de inverno. 
As palavras servem-se da névoa para, primeiro, aderirem 
ao rosto e, de seguida, se entranharem na pele e fluírem 
pela imprevisibilidade das células, percorrendo o corpo 
para florescem, talvez ao sabor de um qualquer acaso, 
capricho sanguíneo ou arrepio cerebral analógico. Mas, 
o mar abre-se aos meus olhos, que se abrem ao mar, 
e assim fica o corpo de um sorriso, num dia suspenso, 
num colossal estribilho, entre o cliché do mar, dos olhos, 
da abertura e da iminência. Outra forma serena de viver. 


 [massivo]



sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Extrospecção


A alegria aérea da ria e a indecisão do crepúsculo 
da cidade, fundem-se e assemelham-se a um 
capricho de névoa para embalar as palavras. 
O outro poema que está no grou de papel 
e eu estou aqui (o nome do lugar nada acresce 
ao poema), a olhar para o vazio, vocês sabem 
como é, de um pacote cheio, sete a nove gramas, 
de açúcar, mas não sabem porquê ou se eu sei, sequer.


 [massivo]



quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Latente


Aqui mergulha a cidade, onde já me confundo como parte 
desta margem indistinta e a desobedecer à solidão e ao mundo. 
Não sei bem há quantos anos-saudade percorro estes canais. 
As palavras não o dizem. Nem os meus olhos dizem a forma 
da tua boca, do teu nariz, dos teus olhos… De todo o teu rosto 
completo pela luz do luar, o brilho solto que inventa labirintos 
para o amor desvendar em várias velocidades e compassos. 
Aqui, longe das areias movediças das conjecturas, as emoções 
são lugares contínuos e habitáveis: o fermento da existência. 
E a cidade prossegue, sob a ria, por passagens subterrâneas. 


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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Moleza


Gosto de dias assim, dias em que o rebordo das palavras límpidas 
espelha a azáfama do Sol, que se multiplica em beijos meigos, 
e o brilho dos pássaros no céu aberto. Céu de um magnífico azul 
tenso. Exemplifico o azul tenso, como aquele azul que os nossos 
olhos, não muito líquidos, nem muito secos, prolongam em bondade 
humana, de um horizonte a outro horizonte diametralmente oposto 
e a todos os seus confinantes laterais e sucessivos, num céu imaculado 
e de fundo inalcançável; absoluto, quando em alto-mar e cerca do 
meio-dia de um dia perfeitamente limpo e de uma qualquer primavera. 
Eu fico imóvel, com o corpo no tempo, enquanto os lugares passam. 
O lugar, como uma medida de tempo, e o tempo, como um destino. 


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domingo, 19 de fevereiro de 2017

Razões


Ria, ria, ria… Corpo emotivo de sentimentos em flor, à flor 
da pele; a sensação perene de presença e pertença inadiável; 
o subconsciente da constante partida sensível e exaustiva. 

A ria cheira a fim do mundo. Mas os seus olhos são um 
sorriso de domingo e quando diz: «Boa noite!» A poesia 
acorda em palavras que dizem o amor, numa forma 
eterna de companhia. Os seus dedos brincam nos meus 
olhos de criança entreaberta, onde não há nada a perder 
e as palavras ainda acreditam na inclusão de um abraço. 


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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Esfera


Não te lembras. Já não te lembras de mim. Lembras-te 
de uma certa imagem que constróis como absoluta, 
mais propriamente tua, onde já não sou cuidadosamente 
eu, ou onde já não vive o meu ralo reflexo, o meu olhar, 
ou a ideia que de mim tenho e existe, ao meu curto alcance 
de espectador exilado da pátria dos instintos. Sou, já, 
a imagem que o tempo guarda num inventário de tons 
legados pela acção erosiva da sua passagem e a projecção 
num aglomerado de palavras e histórias que os caprichos 
da memória redistribuíram num puzzle de ruídos e juízos. 
Talvez como a imagem que de ti guarde. 


 [massivo]



sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Sem legendas


Por ali, os gatos gostam de se enroscar por entre as silhuetas 
floridas de moliceiros e de figuras geométricas, que desconhecem. 
Ficam alerta, nessa protecção imaginária, numa realidade suportável, 
a aguardar por uma qualquer eventualidade fora do seu alcance, 
ou da acidental visita de um belo exemplar de ave, que se adeqúe 
à sua necessidade ancestral e instintiva de saciar a fome quimérica. 

Ali (ou em qualquer outro lugar), há uma eternidade, despudoradamente, 
muitos dos homens, velhos da minha idade, sentados ou de pé, 
enroscados nos casacos inquietos de inverno, de caso pensado, 
lançam os seus olhares ávidos e aflitivos sobre as mulheres, como 
se estas fossem presas, meras mercadorias, ou, propositadamente, 
aves, adequadas ao cortejo do apetite sexual, o seu único e possível. 

Observo, com pudor, com uma escuridão nocturna no olhar. Temo lançar 
um brilho indiscreto, ainda que simbólico, antes de ser, ou ter, outra alma: 
um pássaro; entre as cicatrizes da minha visão ou dos seus sobressaltos 
fugazes. Enrosco-me no poema, presa de mim mesmo. O meu retrato 
é uma linha na minha mão e guardo-a naquilo que é, vagamente, um bolso 
ou a ilusão de o ser, mas, ainda assim, um local à disposição e repetível. 


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